Especialistas com atuação de destaque no Paraná e em diferentes regiões do Brasil estarão em Apucarana nesta sexta-feira (23/10) para discutir uma das mais importantes formas de proteção a crianças e adolescentes afastados de suas famílias por situações de violência ou violação de direitos. O 1º Seminário Municipal de Acolhimento Familiar, promovido pela Prefeitura no Cine Teatro Fênix, também despertou o interesse de profissionais de outros 27 municípios. O encontro é gratuito e aberto à comunidade, com recepção dos participantes a partir das 8h30.
O prefeito Rodolfo Mota apresentou a programação durante entrevista coletiva nesta quinta-feira (22/10), destacando a importância de ampliar o conhecimento da população sobre o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora, que já funciona em Apucarana. “Muitas pessoas ainda não conhecem esse trabalho e talvez nem saibam que podem participar. Queremos apresentar o serviço, explicar como funciona e mobilizar mais famílias para ajudar a proteger nossas crianças”, afirmou.
Rodolfo ressaltou que o acolhimento familiar integra uma rede de cuidados destinada a crianças e adolescentes que precisam ser afastados de situações de violência física, sexual ou emocional. “São crianças que precisam sair de um ambiente de perigo e encontrar proteção. Além das instituições parceiras da Assistência Social, contamos com famílias dispostas a oferecer cuidado e contribuir para a recuperação física e emocional desses meninos e meninas. Queremos aprimorar esse trabalho e ampliar a participação da sociedade”, acrescentou.
A secretária municipal de Assistência Social, Fabíola Cristina Carrero, explica que o seminário reunirá profissionais da rede de proteção, representantes de instituições e moradores interessados em conhecer o serviço. A programação terá palestras e debates pela manhã, intervalo para almoço e continuidade das atividades das 13 às 17 horas. “É um momento para ampliar tanto o conhecimento técnico quanto o entendimento prático sobre o acolhimento familiar. As pessoas podem participar para conhecer o programa, esclarecer dúvidas e entender como funciona. Quem ainda não fez a inscrição poderá se inscrever na chegada ao Cine Teatro Fênix”, explicou.
Uma das convidadas é Neusa Cerutti, diretora técnica do Instituto Acolher, com experiência na implantação e no fortalecimento de serviços de acolhimento familiar em diferentes regiões do país. Durante a coletiva, ela destacou que o Paraná se tornou referência nacional nessa política pública graças à articulação entre profissionais, instituições e poder público. “O Paraná é referência para o Brasil no serviço de Família Acolhedora. Somos o estado que mais acolhe nessa modalidade, e isso se deve muito ao trabalho articulado. É uma política pública que só se constrói a muitas mãos”, afirmou.
“A criança deixa de ser um número e passa a ser sujeito de direitos”
Para Neusa, o principal diferencial do acolhimento familiar está na possibilidade de oferecer atenção individualizada a crianças que passaram por experiências traumáticas. “A criança deixa de ser um número dentro de uma instituição e passa a ser um sujeito de direitos, recebendo cuidados como aqueles que oferecemos aos nossos filhos em casa”, ressaltou. A especialista enfatizou que, mesmo diante do trabalho desenvolvido pelas instituições de acolhimento, a convivência em ambiente familiar é fundamental para uma relação cotidiana de cuidado e afeto.
A complexidade desse atendimento foi ilustrada por Neusa com uma comparação entre a assistência social e a área da saúde. “Eu costumo dizer que o serviço de Família Acolhedora é como uma UTI na saúde. Quem chega à UTI está em condições graves. No acolhimento, recebemos crianças em condições muito difíceis de saúde emocional, mental e, muitas vezes, física”, explicou.
A especialista também defendeu a necessidade de oferecer acompanhamento permanente às famílias acolhedoras. Ao recordar sua experiência em Cascavel, onde o serviço chegou a contar com 230 famílias em acolhimento, Neusa destacou que o apoio técnico e a valorização dos cuidadores foram fundamentais para a continuidade do trabalho. “Quando uma criança vai para a casa de uma família acolhedora, ela não deixa de ser responsabilidade do Estado. Essa família precisa de acompanhamento, suporte e de uma equipe preparada para ajudá-la, porque está assumindo um cuidado muito complexo”, afirmou.
Neusa reforçou que o maior desafio é sensibilizar a sociedade para participar. O acolhimento é provisório, não se confunde com adoção e envolve avaliação, preparação e acompanhamento técnico das famílias. A especialista também destacou que os responsáveis recebem subsídio financeiro da Prefeitura para contribuir com os cuidados. “Precisamos mobilizar a comunidade, porque é dela que sairão as famílias acolhedoras. Cuidar das crianças hoje significa oferecer dignidade, proteção e a possibilidade de um futuro melhor”, concluiu.
A programação contará ainda com Natália Figueiredo, doutora em Serviço Social pelo PPGS/UERJ; Sérgio Luiz Kreuz, desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná; e Luciano Machado de Souza, promotor de Justiça do Ministério Público do Paraná.
CONHEÇA OS PALESTRANTES
Neusa Cerutti — Diretora técnica do Instituto Acolher
Assistente social, advogada e mestre em Serviço Social pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Possui ampla experiência no acolhimento familiar, incluindo atuação por 11 anos no serviço de Cascavel. Desenvolve atividades de formação e orientação de equipes em diferentes regiões do Brasil e é coautora de publicações sobre o direito à convivência familiar e comunitária.
Sérgio Luiz Kreuz — Desembargador do TJPR
Mestre em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com especializações em Direito Civil pela Universidade Clássica de Lisboa e em Criminologia pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha. É cofundador do Serviço de Acolhimento Familiar de Cascavel, autor de obra sobre o direito à convivência familiar e atua na coordenação de iniciativas do Judiciário paranaense voltadas à infância e à juventude.
Luciano Machado de Souza — Promotor de Justiça do MPPR
Doutor e mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em Filosofia pela Unioeste e em Direito Público pela UFPR. Ingressou no Ministério Público do Paraná em 1997, com atuação na proteção dos direitos de crianças e adolescentes e de pessoas com deficiência. Também possui experiência docente no ensino superior e participação em debates sobre acolhimento familiar.
Natália da Silva Figueiredo — Pesquisadora e assistente social
Doutora e mestre em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com graduação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua pesquisa de doutorado abordou a complexidade dos serviços de família acolhedora no Rio de Janeiro. Tem experiência na formação e assessoria de equipes de acolhimento familiar e institucional, além de atuação acadêmica em direitos humanos, infância e juventude.
ENTENDA O QUE É O SERVIÇO FAMÍLIA ACOLHEDORA
O que é?
É um serviço de proteção que oferece acolhimento temporário em ambiente familiar a crianças e adolescentes afastados de suas famílias de origem por situações de risco ou violação de direitos.
Quem pode participar?
Pessoas e famílias interessadas em acolher temporariamente uma criança ou adolescente, desde que atendam aos critérios do serviço e sejam aprovadas em avaliação técnica.
É uma adoção?
Não. O acolhimento é provisório e não estabelece vínculo de filiação. O objetivo é garantir proteção enquanto a situação da criança ou adolescente é acompanhada pelos órgãos responsáveis.
As famílias recebem apoio?
Sim. O serviço prevê acompanhamento por equipe técnica, preparação dos acolhedores e subsídio financeiro municipal para contribuir com os cuidados.
Como se tornar uma família acolhedora?
O interessado deve procurar a Secretaria Municipal de Assistência Social para conhecer o serviço, os requisitos e as etapas de avaliação e preparação.
Como participar do seminário?
O encontro será realizado nesta sexta-feira (23/10), no Cine Teatro Fênix, em Apucarana. A recepção está prevista para as 8h30, com início das atividades às 9 horas. A programação segue até o meio-dia e retorna das 13 às 17 horas. A participação é gratuita, e quem não realizou inscrição antecipada poderá se inscrever no local, conforme orientação da Secretaria de Assistência Social.

